Neste artigo, você vai saber qual a relação entre a homossexualidade de Hans Christian Andersen e o conto infantil O patinho feio. Além disso, vai conhecer um pouco sobre a vida desse escritor. E você que gosta dos conteúdos do site Literatura!, conheça também os livros de seu autor. É só clicar aqui.
Quem é Hans Christian Andersen?

Hans Christian Andersen é um autor de literatura infantil. Um dos mais famosos escritores da Dinamarca. E um escritor possivelmente homossexual. Ele nasceu em Odense, no dia 2 de abril de 1805, em uma família pobre. Sim, o pai do garoto era sapateiro e o deixou órfão em 1816. O menino então começou a trabalhar. Eram tempos em que crianças não tinham amparo nesse sentido.
Em Copenhague, com apenas 14 anos, tentou ser ator e cantor, sem sucesso. Até que encontrou alguém que o ajudou e pagou seus estudos, um senhor respeitável chamado Jonas Collin. Isso permitiu que, em seguida, Andersen pudesse fazer faculdade. O escritor morreu em 4 de agosto de 1875, em Copenhague.
Hans Christian Andersen era homossexual?
Não existe consenso sobre a homossexualidade, heterossexualidade, bissexualidade ou assexualidade do famoso autor dinamarquês Hans Christian Andersen. Aqueles que defendem a sua heterossexualidade ou abstinência sexual, normalmente, se amparam no fato de que o autor era muito religioso, e atos homossexuais seriam contrários aos princípios de sua fé.
Contudo, não existem evidências de sua conduta sexual. De forma que todas as afirmações a respeito ficam no campo da especulação. O autor não se casou nem teve filhos. Há quem defenda que ele foi virgem durante toda a sua vida. Se ele vivia um conflito sexual ou lidava bem com sua sexualidade, nunca saberemos.
Sobre a homossexualidade do autor, no site Centro H. C. Andersen, há informações como:
Desde que em 1901 o escritor homossexual dinamarquês Carl Albert Hansen Fahlberg, sob o nome de Albert Hansen, publicou um artigo no jornal Jahrbuch für sexuelle Zwischenstufen de Magnus Hirschfeld intitulado: Hans Christian Andersen: Beweis seiner Homosexualität, a teoria de que Andersen era homossexual tem surgido de tempos em tempos. As descrições mais completas do homem Andersen e as análises de seu trabalho que têm origem na teoria da homossexualidade são o capítulo de Heinrich Detering sobre Andersen em seu livro Das offene Geheimnis. Zur literarischen Produktivität eines Tabus von Winckelmann bis zu Thomas Mann (Göttingen, 1994), a biografia de Allison Prince, Hans Christian Andersen. The Fan Dancer (Londres, 1998) e a biografia de Jackie Wullschlager, Hans Christian Andersen. The Life of a Storyteller (Londres e Nova York, 2001, edição dinamarquesa, 2002). Este livro ganhou, em 2002, o prestigioso prêmio Hans Christian Andersen da cidade de Odense, no valor de 50.000 euros.
Wullschlager, que fala de Edvard Collin (de todas as pessoas!) como o “amante” de Andersen, sustenta o seguinte em uma longa nota de rodapé (p. 382): “O silêncio dos comentaristas dinamarqueses, desde a época de Andersen até os dias atuais, sobre o tema de seus relacionamentos homossexuais, é notável. Os diários de Andersen não deixam dúvidas de que ele se sentia atraído por ambos os sexos; que às vezes ansiava por um relacionamento físico com uma mulher e que, em outras ocasiões, se envolvia em relações sexuais com homens”.
No entanto, o assunto foi discutido diversas vezes na Dinamarca, por exemplo, na biografia de Hans Christian Andersen (1974), de Elias Bredsdorff, e em HC Andersen, de Johan de Mylius. […]. Este último forneceu documentação para coisas que falam de sentimentos muito calorosos de Andersen por Henrik Stampe e Harald Scharff […]. Os sentimentos muito fortes (mas completamente platônicos, também inteiramente assexuados e, além disso, não correspondidos) de Andersen em sua juventude por Edvard Collin e Ludvig Müller são bem conhecidos.
A possível homossexualidade do autor pode ter deixado marcas em algumas de suas obras literárias. Sobre isso, José Carlos Barcellos comenta:
Wolfgang Popp trata dessa questão específica num capítulo intitulado “Máscara e sinal”, em que estuda, entre outros, um autor como Hans Christian Andersen, cuja experiência como homossexual poderia ser lida na “diferença” e “marginalidade” de vários de seus heróis, como o Soldadinho de Chumbo ou o Patinho Feio. Popp pergunta como ler de maneira coerente e metódica esses “disfarces” do homoerotismo e os eventuais índices disseminados ao longo do texto, intencionalmente ou não, em vista de um possível leitor “sintonizado” com a mesma problemática do autor e, assim, supostamente capaz de decodificá-los de maneira plena.
Obras famosas de Hans Christian Andersen
- O patinho feio.
- Os sapatinhos vermelhos.
- O soldadinho de chumbo.
- A pequena sereia.
- A roupa nova do rei.
- A princesa e a ervilha.
- A rainha da neve.
Metáfora da homossexualidade em O patinho feio
Em um dia encantador, uma pata, sentada no ninho, chocava seus patinhos. Então, as cascas dos ovos começaram a rachar. Todos os patinhos nasceram. Mas o ovo maior continuou intacto. Uma velha pata, vendo o ovo, disse que era um ovo de peru. Até que o ovo partiu, e de lá saiu um patinho grande e feio.
Nesse ponto, o narrador evidencia a diferença. O patinho era diferente dos outros, de uma forma desagradável, pois, segundo o ponto de vista dos patos, era feio. Portanto, diferente, “errado”, “desviante”. Assim, o patinho feio pode ser comparado a um filho homossexual. A mãe logo percebeu o quanto ele era diferente, não se parecia com os outros. Para provar que era mesmo um pato, ela decidiu o levar para a água, disposta mesmo a enfiar o filho à força na água.
No dia seguinte, ela pulou na água e foi seguida pelos filhotes, inclusive o patinho feio. Assim, ela teve certeza de que ele não era um peru e se convenceu de que era mesmo seu filho. Mas os patos da vizinhança logo perceberam que o patinho era feio, tiveram nojo dele, não quiseram tolerar sua presença. Então um pato mordeu seu pescoço.
É possível, claramente, associar esse trecho ao bullying sofrido pelos homens gays, principalmente quando são crianças e adolescentes. E por mais que na época de Andersen não existisse ainda os termos “gay” e “homossexual”, as pessoas gays ou homossexuais existiam, como sempre existiram e existirão, e sofriam perseguição por serem “diferentes”.
O patinho estranho foi considerado feio. E, por isso, foi empurrado, bicado, humilhado, ridicularizado. Não só pelos outros patos, mas também pelas galinhas. Tudo isso causou uma tristeza imensa no patinho feio. Ele era maltratado até pelos próprios irmãos e irmãs, além de ser rejeitado pela mãe.
O patinho feio decidiu fugir e voou sobre a cerca. Foi para o pântano, lar dos patos selvagens. Estes também o chamaram de feio, mas o aceitaram ali. Conheceu dois gansos selvagens, que também constataram sua feiura. Porém, os gansos começaram a ser alvejados por uma arma de fogo.
Quando a caça terminou, e tudo estava calmo, o patinho correu para bem longe daquele pântano. Acabou chegando a um pobre casebre, onde morava uma velha, um gato e uma galinha. A velha queria que ele botasse ovos, pois não sabia qual o seu sexo. Sem conseguir se adaptar àquele meio, o patinho novamente foi embora.
Porém, o patinho feio continuou a ser menosprezado e humilhado por causa de sua feiura. Era outono quando o patinho viu, durante o pôr do sol, um bando de pássaros grandes e bonitos. Eram muito brancos, tinham pescoços compridos e cheios de graça. Sim, era a primeira vez que o patinho via cisnes.
Estavam saindo do país por causa do frio, em busca de terras quentes. Aquela visão despertou algo no patinho feio, que acabou soltando um grito estranho e estridente. Sentia afeto por aqueles pássaros, mas não sabia dizer o porquê. Com o frio do inverno, o patinho acabou congelando em um lago.
Foi encontrado por um fazendeiro, que o levou para casa e o reanimou. Assustado, o patinho fugiu e passou por várias dificuldades até o fim do inverno. Finalmente, chegou a primavera. Então ele encontrou três cisnes brancos e decidiu acompanhá-los. Se entendemos a “feiura” do patinho como sua homossexualidade, os cisnes são a sua comunidade, pessoas que compartilham as mesmas características e podem lhe dar a sensação de pertencimento.
Ele foi em direção aos cisnes. Eles o viram e foram ao seu encontro. “Mate-me”, disse o patinho feio. Mas abaixou a cabeça e viu o próprio reflexo. Não era mais a imagem de um pato desengonçado e feio. Era a imagem de um cisne. Ele era um cisne! Nesse ponto, o protagonista encontra a felicidade ao descobrir sua própria identidade. Ele ser um cisne pode ser lido como ser homossexual e estar entre seus iguais.
O protagonista sobreviveu aos insultos e agressões daqueles que o discriminaram por ele não ser parecido com eles. O lindo cisne, antes de se encontrar, se sentiu feio, sujo, digno da morte. Ele ainda não sabia que era mais belo e mais imponente do que os medíocres patos. Mas, enfim, encontrou a felicidade entre os seus iguais.
Agora que você já entendeu a relação entre a homossexualidade de Andersen e o conto O patinho feio, que tal ler um livro? Desta vez, vou te indicar o livro Tia Vilma, que conta a história de Bruno e sua fantástica professora.
Leia também este livro: Tô ligado!.
Referências
BARCELLOS, José Carlos. Literatura e homoerotismo em questão. Rio de Janeiro: Dialogarts, 2006.
FARIA, Fernanda Cristina Ribeiro. A estética da recepção contribuindo para o ensino de literatura infantil: uma experiência com o conto A pequena vendedora de fósforos, de Hans Christian Andersen (1805-1875). 2010. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Estadual Paulista, Presidente Prudente, 2010.
H. C. ANDERSEN CENTRET. Homossexuality. Acesso em: 07 jun. 2025.
H. C. ANDERSEN CENTRET. The ugly duckling. Acesso em: 14 jun. 2025.
OLIVEIRA, Véra Beatriz Medeiros Bertol de. A representação da criança nos contos de Hans Christian Andersen: o desvelar de um paradigma. 2009. Dissertação (Mestrado em Letras) – Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Estadual de Maringá, Maringá, 2009.
ROSA JUNIOR, Paulo Ailton Ferreira da; THIES, Vania Grim. Em busca dos contos de fadas na contemporaneidade. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, v. 26, 2021.
Este artigo foi escrito por: Warley Matias de Souza.