Neste artigo, você vai conhecer o Arcadismo, descobrir onde surgiu esse estilo de época e quais são as suas principais características. Também vai saber quais são os principais autores do Arcadismo no Brasil. E você que gosta dos conteúdos do site Literatura!, conheça também os livros de seu autor. É só clicar aqui.

Onde surgiu e quais são as características do Arcadismo?

O Arcadismo nasceu na Europa do século XVIII, como influência do Iluminismo e com a missão de neutralizar o estilo barroco. O objetivo dos poetas árcades era fazer um resgate dos temas clássicos e renascentistas. Assim, esse estilo de época também é conhecido pelo nome de Neoclassicismo.

O Arcadismo enaltece os espaços bucólicos, isto é, a natureza em sua beleza e tranquilidade. Por isso, uma de suas características é apresentar elementos que valorizem o campo em detrimento da cidade, é o fugere urbem ou “fuga da cidade”. Nessa perspectiva, também apresenta o locus amoenus ou “lugar ameno”.

O poeta árcade valoriza a simplicidade, é contrário aos excessos barrocos. Portanto, expressa a aurea mediocritas ou “mediocridade áurea”. Do mesmo modo, defende o inutilia truncat ou “cortar o inútil”. Para que ter mais do que precisamos? O Arcadismo idealiza o amor e a mulher amada, verdadeiros tesouros para o poeta.

A estética árcade nos inspira a aproveitar o momento, é o carpe diem. Porém, devemos ser equilibrados. Aproveitar o momento é contemplar a natureza, sem cometer excessos. Há também o pastoralismo, identificado na poesia árcade pela presença de pastores, pastoras e ovelhas em ambiente obviamente campestre.

Quais são as características do Arcadismo no Brasil?

A obra Marília de Dirceu

O livro Marília de Dirceu, publicado pela editora L&PM, é a principal obra do Arcadismo brasileiro.

Marília de Dirceu é a principal obra do Arcadismo brasileiro. Ela é composta por liras que expressam emoções e sentimentos do eu lírico, ou seja, Dirceu, o qual enaltece sua amada. Na primeira parte do livro, é possível observar todas as características do Arcadismo europeu.

Porém, a segunda parte foi escrita quando Tomás Antônio Gonzaga estava preso, acusado de traição, ou seja, de envolvimento no que hoje chamamos de Inconfidência Mineira. Por esse motivo, é possível observar um tom melancólico e, em alguns momentos, até sombrio, não condizentes com a estética árcade.

Para exemplificar, vamos transcrever a seguir duas liras, uma da primeira, e outra da segunda parte, dessa obra que é o primeiro best-seller da literatura brasileira. Aliás, é preciso dizer que a linguagem utilizada era simples e clara para a época. Entretanto, leitoras e leitores atuais podem sentir certa dificuldade na leitura da obra.

Na LIRA III, da primeira parte, o eu lírico enaltece a beleza de Marília:

De amar, minha Marília, a formosura 
Não se podem livrar humanos peitos. 
Adoram os Heróis; e os mesmos brutos 
Aos grilhões de Cupido estão sujeitos. 
Quem, Marília, despreza uma beleza
A luz da razão precisa; 
E se tem discurso, pisa 
A lei, que lhe ditou a Natureza. 

Cupido entrou no Céu. O grande Jove 
Uma vez se mudou em chuva de ouro; 
Outras vezes tomou as várias formas 
De General de Tebas, velha e touro. 
O próprio Deus da Guerra, desumano, 
Não viveu de amor ileso; 
Quis a Vênus, e foi preso 
Na rede, que lhe armou o Deus Vulcano. 

Mas sendo Amor igual para os viventes, 
Tem mais desculpa, ou menos esta chama: 
Amar formosos rostos acredita, 
Amar os feios de algum modo infama. 
Quem lê que Jove amou, não lê nem topa, 
Que amou vulgar donzela: 
Lê que amou a Dánae bela, 
Encontra que roubou a linda Europa. 

Se amar uma beleza se desculpa 
Em quem ao próprio Céu e terra move, 
Qual é a minha glória, pois igualo, 
Ou excedo no amor ao mesmo Jove? 
Amou o Pai dos Deuses Soberano 
Um semblante peregrino;
Eu adoro o teu divino, 
O teu divino rosto, e sou humano.

Já na LIRA V, da segunda parte, o eu lírico fala de seu sofrimento, já que está na prisão. Mas ele resiste, pois tem esperança de reencontrar Marília:

Os mares, minha bela, não se movem;
O brando Norte assopra, nem diviso 
Uma nuvem sequer na Esfera toda; 
O destro Nauta aqui não é preciso; 
Eu só conduzo a nau, eu só modero
Do seu governo a roda. 

Mas ah! que o Sul carrega, o mar se empola, 
Rasga-se a vela, o mastaréu se parte! 
Qualquer varão prudente aqui já teme:
Não tenho a necessária força e arte. 
Corra o sábio Piloto, corra e venha 
Reger o duro leme. 

Como sucede à nau no mar, sucede 
Aos homens na ventura e na desgraça; 
Basta ao feliz não ter total demência; 
Mas quem de venturoso a triste passa, 
Deve entregar o leme do discurso 
Nas mãos da sã prudência. 

Todo o Céu se cobriu, os raios chovem;
E esta alma, em tanta pena consternada, 
Nem sabe aonde possa achar conforto. 
Ah! não, não tardes, vem, Marília amada, 
Toma o leme da nau, mareia o pano, 
Vai-a salvar no porto. 

Mas ouço já de Amor as sábias vozes: 
Ele me diz que sofra, se não, morro; 
E perco então, se morro, uns doces laços. 
Não quero já, Marília, mais socorro; 
Oh! ditoso sofrer, que lucrar pode 
A glória dos teus braços!

Autores do Arcadismo brasileiro e suas principais obras

Principais autores do Arcadismo europeu

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Leia também este livro: Arte, literatura e política.

Referências

ABAURRE, Maria Luiza M.; PONTARA, Marcela. Literatura: tempos, leitores e leituras. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2015.

GONZAGA, Tomás Antônio. Marília de Dirceu. Porto Alegre: L&PM, 2007.

Este artigo foi escrito por: Warley Matias de Souza.